Uma São Paulo que bate

Seis e quarenta. Abro os olhos, que mal tiveram tempo de remelar, e já ouço a Sinfônica outra vez. Despertador pra quê? Com uma ventana desta, bem na boca do Minhocão, só não acorda quem já morreu – e cá estou eu, mais uma manhã, vivinho da Silva. Ponho os pés no chão e só pelo toque das solas já dá pra medir a escala Richter: uns dois ponto oito, quase três – ah, um dia este meu predinho há de desabar. Nem tiro as meias; calço as sandálias novas (agradinho da bisneta caçula), e testo os joelhos, sem pressa. Afinal de contas, com 82 primaveras nas costas, qualquer andadinha já é um esporte de louco, destes que a moçada gosta.

Nosso querido Babu

Dedos agarrados ao alambrado; boné velho rente às sobrancelhas; radinho de pilha colado no ouvido, com o volume lá no alto – e tão alto que até a torcida visitante, lá do outro lado, era capaz de ouvir a narração da peleja. Era o Babu. Senhor destes que, em um estádio, costuma passar despercebido. Feição de rabugento, o caminhar lento e nervoso, a balbuciar profecias inaudíveis – um desenho clássico do amendoim, o falso torcedor que dá o ar da graça só para xingar e espantar conversa. Mas, não – ele era exatamente o oposto. Mais doce que algodão doce; religiosamente calado durante o rolar da bola; gargalhava de todas as lorotas que eu lhe contava nos intervalos. Se você fosse um torcedor do São Bento de Sorocaba, certamente o conheceria – nem que apenas de vista. Fosse nos jogos grandes ou menores, fizesse chuva ou sol, ele estaria lá: ele, seu boné e seu radinho, com o volume lá no alto.

Carnaval – Maria Bonita

A índia que me abraçara, conhecia tudinho do Rio: a Letícia, que estava "atrasadérrima" para o bloco, mas fez questão de nos espremer em um Fiat Tipo de Pereira, um amigo que era da bateria. Foi nos contando os segredos do Rio que geralmente não se conta – o Rio que não é praia; nem Cristo; nem Maracanã; nem Pão de Açúcar. E o trânsito pela Barata Ribeiro, que de semana já não é grande coisa, estava de dar dó; mas a gente ia andando, na base do vamos-que-vamos, aprendendo a dar mais valor às nossas amadas Marginais da vida.

Carnaval – Índia Potira

Se era o Rio mesmo ou um pedaço do agreste, eu já não sabia mais; se os sacolés eram de caju ou abacaxi, já era questão de mero preciosismo; se estava bêbado ou passando meio mal, acho que nem fazia mais tanta diferença; se o trio elétrico estava tocando axé ou funk, dali não dava pra ouvir nem a pau, Juvenal – e eu, no meio de toda essa algazarra, feito cego em tiroteio. O nome do bloco, até me esqueci; era a Banda de alguma coisa, pela orla de Ipanema, e a turma jurava que era o mais tradicional do dia. Então, fazer o quê? Naquela altura do campeonato, de certeza mesmo, eu só tinha uma: tava duro encontrar meu Carnaval.

Carnaval – Carmen Miranda

O apartamento abarrotado, beirando o congestionado; a cerveja tinha acabado já desde a hora do café; a catuaba, que segurava as pontas da massa bêbada, quente feito um chá; o fumacê de beque e cigarros por todas as quinas do ar; uma conga ridícula, provavelmente da Gretchen, tocando alto na sala e tornando qualquer tentativa de conversa à beira do inviável – e sorrisos espalhados, de graça, por cada alma viva ali presente. Ainda é Carnaval, afinal.

Carnaval – Frida Kahlo

Um mormaço com o selo verde e amarelo; um trânsito para perder a fé de um dia chegar; um cheiro que reúne um blend de álcool e mijo por cada esquina que você dobra; uma sujeira que te lembra um pouco do mar de santinhos nas eleições de outrora; uma dor de cabeça que não te abandona nunca; uma vontade incessante de morar debaixo de um chuveiro, por mais que nessa época do ano, água encanada seja um luxo temporário. Poderia ser a visão do inferno – porém, por um milagre destes que brota do âmago mais íntimo de nossa identidade nacional, é exatamente o oposto. É o Carnaval.

Viagem ao negrume da alma

Descobri que a solidão e a escuridão me acalentam. E que mesmo só e no escuro, chorarei. Por não aceitar esta constatação; por ser lembrado que sou um louco; por saber que cada vez que mais me confortar, mais estarei perdido. E assim, quanto mais puder sentir a liberdade deste nado, mais serei tragado pelo mar – até o dia em que me afogarei. E mesmo sabendo disso, não consigo lutar contra. Quero me afogar – quero que meus demônios transpassem as defesas de minha alma. Assim, neste rumo inverso ao da salvação, não preciso sentir desespero. Quero prender a respiração até chegar às últimas consequências, até que meus pulmões se encham da água, como se assim pudesse voltar a ser um feto. Mas, sei que isso é impossível. E assim, não estou apenas fadado ao fracasso – sei que sempre estive.

Não houve adeus

Veio aquele cheiro de lenha queimada e pronto, já voltei uns vinte anos. Estou sentado no balanço. As placas de madeira meio soltas; as correntes enferrujadas nas mãozinhas – aquele ruído agudo, constante, compassado. Um rangido, longe de ser desagradável; hoje, mais para trilha sonora de tempos em que viver era fácil. Porra, tem lembrança que nunca sai da cabeça – e não importa o quão novo você fosse e o quão velho você seja. Comigo, o cheiro da lenha é só a ponta de uma lembrança bem mais longa.

Quem se fode é quem fica

Hoje faz um ano que ela se foi – e desde então, muita coisa passou por minha cabeça. Saudade, sobretudo; um sentimento estranho, de falta; quase um não-sentimento. E isso é o de menos. Difícil é voltar a sentir a mesma dor de antes, depois de tanto tempo. Dor que me rodeou por meses e que, subitamente, parecia extinta. Foi embora, sem anunciar, até parecia cansada do próprio sadismo – enjoou de mim. Então, meu luto cessou e deu lugar a este nada; me fez até saudoso da dor, por incrível que pareça. Contudo, eu não sabia que até a tristeza tem saudade; e acho que veio matá-la em mim.

Noite de Lua

Meia-noite e só nós dois na rua. Para a minha tristeza, o papo parece acabado – não há mais nenhuma carta na manga; nada que possa postergar o meu tempo ao lado dela. A caminhada terminando, dobrando a esquina de sua casa. Já conheço este trajeto de cór – talvez mais que ela; e sei bem a hora de preparar o meu coração para a despedida. Acontece que, quando esta hora chega, é tudo sempre igual: ela vira de frente pra mim, eu fito seus olhos, e o que resta da curta hesitação é apenas seu "até mais" - curto, seco. Mas, desta vez, no último passo, quando ela curva o rosto para o meu, e tudo parece igual outra vez, todos os preparativos são inúteis: congelo, sofro e sonho. Outra vez, é como se fosse a primeira vez.