Carnaval – Carmen Miranda

O apartamento abarrotado, beirando o congestionado; a cerveja tinha acabado já desde a hora do café; a catuaba, que segurava as pontas da massa bêbada, quente feito um chá; o fumacê de beque e cigarros por todas as quinas do ar; uma conga ridícula, provavelmente da Gretchen, tocando alto na sala e tornando qualquer tentativa de conversa à beira do inviável – e sorrisos espalhados, de graça e faceiros por cada alma viva ali presente. Ainda é Carnaval, afinal.

Carnaval – Frida Kahlo

Um mormaço com o selo verde e amarelo; um trânsito pra perder a fé de um dia chegar; um cheiro que reúne um blend de álcool e mijo por cada esquina que você dobra; uma sujeira que te lembra um pouco do mar de santinhos nas eleições de outrora; uma dor de cabeça que não te abandona nunca; uma vontade incessante de morar debaixo de um chuveiro, por mais que nessa época do ano, água encanada seja um luxo temporário. Enfim, poderia ser a visão do inferno – mas, por um milagre destes que brota do âmago mais íntimo de nossa identidade nacional, é exatamente o oposto. É o Carnaval.

Leque da tolerância

Certo dia, cansei de ser triste. Andava pela mesma rua de sempre; com o mesmo pensamento de sempre; repetindo o mesmo equívoco de sempre. Tudo continuava igual, mas cansei. E ainda que nada tenha mudado, eu mudei. As sobrancelhas pesadas, antes fechadas para dentro, se abriram; o olhar derrotado, antes cabisbaixo e pequeno, se ergueu. E por mais que o dia continuasse nublado, amanheceu – ele sempre amanhece.

Quem se fode é quem fica

Hoje faz um ano que ela se foi – e desde então, muita coisa passou por minha cabeça. Saudade, sobretudo; um sentimento estranho, de falta; quase um não-sentimento. E isso é o de menos. Difícil é voltar a sentir a mesma dor de antes, depois de tanto tempo. Dor que me rodeou por meses e que, subitamente, parecia extinta. Foi embora, sem anunciar, até parecia cansada do próprio sadismo – enjoou de mim. Então, meu luto cessou e deu lugar a este nada; me fez até saudoso da dor, por incrível que pareça. Contudo, eu não sabia que até a tristeza tem saudade; e acho que veio matá-la em mim.

Noite de Lua

Meia-noite e apenas nós dois na rua. Para a minha tristeza, o papo parece acabado; não há mais nenhuma carta na manga, nada que possa postergar meu tempo ao lado dela. A caminhada terminando, dobrando a esquina de sua casa. Já conheço este trajeto de cór, talvez mais que ela; e sei bem a hora de preparar meu coração para a despedida. Acontece que, quando esta hora chega, é tudo sempre igual: ela se vira de frente pra mim, eu fito seus olhos, e o que me resta da curta hesitação é apenas seu até mais - curto, seco. Mas, desta vez, no último passo, quando ela curva o rosto para o meu, e tudo parece igual outra vez, todos os preparativos são inúteis: congelo, sofro e sonho. É sempre como se fosse a primeira vez.