domingo, 26 de outubro de 2014

O Candidato

Nós temos um candidato que faria um bem imenso para o privado. Entenda como "privado" todo aquele que não dependa de nada público; isto é, toda pessoa que tem acesso à saúde privada, educação privada e transporte privado. E que fique aqui bem claro, por seu próprio mérito este cara atinge o nirvana em um país baseado na cultura do privado: um plano de saúde básico, a escola particular dos filhos e um carro 0km na garagem de sua casa própria. Este cara merece tudo isso, de verdade, afinal ele trabalha para isso. Só que aí uma coisa em geral começa a acontecer: esse cara começa a olhar cada vez mais para o próprio umbigo e a enaltecer toda a felicidade que existe em sua vida privada. Aí fode tudo.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Quem se fode é quem fica

Hoje faz um ano que ela se foi. E nesse ano, muita coisa passou por minha cabeça. Saudade, sobretudo – um sentimento estranho; sentimento de falta; quase um não-sentimento. A dor, é claro, rodeou o meu peito por algum tempo. Depois ela foi embora, buscar outra alma coitada, cansada do próprio sadismo – enjoou de mim. Acontece que dessa despedida, veio só o começo. Meu luto terminou e deu lugar a este nada – me fez até um pouco saudoso da tristeza, por incrível que pareça.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

O babaca

Nunca fiz mal a ninguém. Fiquei sempre feliz com a felicidade alheia. Soube valorizar as vitórias, tão escassas em um mundo de derrotas. Nunca fui preconceituoso ou racista. Também não fui falso, tampouco mentiroso. Guardei minha dor no bolso para cuidar da dos outros. Não sou desses insensíveis que falam tudo aquilo o que querem. Sempre fui aberto a ouvir as boas notícias, como também os murmúrios de quem fosse – às vezes até de desconhecidos, pessoas que nunca tiveram com quem conversar ou com quem se abrir. Sempre tive ouvidos para todos. Estive aberto ao mundo, tendo consciência plena de sua loucura coletiva. Tive a resposta para todos os males daqueles que caíram diante de mim, que por mim passavam, ouviam, e voltavam a viver. Nunca ouvi um obrigado. Só que, no final das contas, nada mudou. E ninguém gostou de mim.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Noite de Lua

Meia-noite e apenas nós dois no meio da rua. Para a minha tristeza, o papo parecia acabado; eu não tinha mais nenhuma carta na manga para postergar o tempo ao lado dela. A caminhada terminando, dobrando a esquina de sua casa; eu já sabia aquele trajeto de cór – mais que ela própria. E sabia até a hora de já preparar o meu coração para a despedida: diante da porta. Era tudo sempre igual; ela se virava de frente pra mim, eu olhava seus olhos e então me restava apenas seu até mais; curto, seco, sem muitas delongas. Contudo, no último passo, quando ela se virou, de novo meus preparativos foram inúteis – estava sofrendo de novo, como na primeira vez.